Maio 7, 2008 por edde745

ARTIGOS  DE  BELISARIO  DOS SANTOS

 

Não será que a pobreza também está em globalização?

 

 

Hoje em dia, quase que todas as reformas que estão a acontecer nos países em vias de desenvolvimento têm sido vistas como um resultado da transferência de políticas públicas da agenda da Nova Administração Pública (baseada no modelo neo-liberal). A transferência de políticas públicas de uma nova abordagem entre países tem sido feita através de condições coersivas e impostas, principalmente nos países em vias de desenvolvimento. Logo, os países altamente pobres individados (HIPC) são os mais susceptíveis por ideias impostas.

 

Se repararmos, desde o início da década de 80 os programas de ‘ajustamento estrutural’ e  de ‘estabilização macroeconómica’ impostos pelo FMI e Banco Mundial em países em vias de desenvolvimento como condição para a negociação das sua dívida externa têm levado ao empobrecimento de milhões de pessoas no mundo. Os programas de ajustamento estrutural até contrariam o famoso acordo de Breeton Woods, que assenta em princípios como a reconstrução económica e estabilidade das principais taxas de câmbio. Pelo contrário, os programas de ajustamento estrutural têm contribuído grandemente para a desestabilização de divisas nacionais e a ruínas económicas dos países em vias de desenvolvimento. Como consequência imediata disso, se tem assistido ao colapso do poder de compra interno daqueles países, assistem-se surtos de fome (principalmente em África), escolas e centros de saúde encerrados ou sem qualidade de serviços, negação do direito à educação básica a milhões de crianças. Além disso, ainda em muitos desses países em vias de desenvolvimento, estas reformas decorrentes dos programas de ajustamento estrutural têm conduzido ao aumento e surgimento de doenças infecciosas como a cólera, a malária, a tuberculose e no top temos a grande pandemia do século – o HIV/SIDA.

 

Se o mandato do Banco Mundial é realmente o “combate à pobreza” e protecção do ambiente, na prática tem se assistido o seu apoio a grandes projectos hidro-eléctricos e agro-industriais (e agora com a onda dos biocombustíveis) que consequentemente, tais projectos por sua vez têm contribuído para um processo acelerado de desflorestação e destruição da biodiversidade, em alguns casos tem levado à deslocação forçada de milhões de pessoas.

 

Basicamente, estamos diante de uma polarização social e de um processo de concentração de riqueza em mãos de poucos em detrimento de milhões. Assiste-se porém, que no Norte, no Leste e no Sul do globo, apenas uma minoria social tem vindo a acumular vastas quantidades de riqueza à custa da grande maioria da população mundial. Assim, pode-se mesmo concluir que o principal combustível desta nova ordem financeira internacional é a pobreza humana e a destruição do ambiente natural. Portanto, estão aí as razões que originam o apartheid social, o racismo, as tensões étnicas, a não observação dos direitos da mulher e os constantes conflitos destrutivos entre grupos sociais, principalmente nos países em vias de desenvolvimento. Então, estas reformas que já foram introduzidas em mais de 150 países, desde a América Latina, Ásia e África, não conduzem à um processo de globalização da pobreza? Acho que sim, porque têm posto em causa a sobrevivência humana.

 

 

China, o novo credor para a África

 

O empréstimo chinês é largamente bem-vindo para a África. Os empréstimos providenciados pela China têm contribuído para financiar infra-estruturas e outros projectos necessários para o desenvolvimento da África. No entanto, é preocupante que a China está a conceder empréstimos para países que já possuem grandes dívidas externas pendentes ou por serem liquidadas. Não é o empréstimo em si que é problemático, o problemático segundo me parece, é que os empréstimos da China estão a ser feitos para países ricos em recursos naturais. Deste modo, o que torna o empréstimo chinês um risco para a sustentabilidade da dívida nos países pobres é essencialmente a falta de transparência no processo de contrair tais empréstimos, porque normalmente tais processos não são abertos ao escrutínio público. E isso tem deixado muito poder em mãos de apenas poucos líderes africanos e até pode, no futuro levar a fraca legitimidade dos cidadãos pela respectiva dívida.

As grandes somas líquidas (algumas através de serviços prestados por companhias chinesas) que a China tem estado a emprestar tem levado ao consequente aumento das suas actividades de empréstimos em África, a ponto de em 2006 a China ter previsto dobrar a sua ajuda para a África, no período entre 2006 a 2009. E isto tem tornado a China no actor mais relevante para os países africanos. Certamente que a comunidade internacional tem virado os seus olhos para a China como um novo credor para a África, sobrepondo-se mesmo à sua tradicional hegemonia. A preocupação da comunidade internacinal em ver a China como novo credor, talvez não seja determinada pela duração da presença da China em África, mas sim, pelo aumento massivo dos montantes financeiros emprestados aos países africanos e pela importância da China enquanto doador que não se guia pelos padrões (embora também não tão bons para que os países africanos se desenvolvam mais) dos considerados doadores tradicionais ou doadores do ocidente (doadores do ocidente, Banco Mundial e FMI). Deste modo, estas preocupações que têm sido levantadas pelos antigos credores tem criado simultaneamente preocupação e optimismo.

A China tem tido uma fraca pressão em relação ao seu envolvimento com os países da África Sub-Sariana. A sua falta de condicionalidade aos empréstimos feitos, principalmente em relação aos aspectos de direitos humanos e questões ambientais; a sua falta de atenção pela transparência no processo de contracção dos empréstimos pelos países africanos e, a sua fraca aderência a padrões internacionais sobre financiamentos mais responsáveis tem, preocupado o resto da comunidade de doadores internacionais e mesmo de cidadãos africanos. Muita atenção também tem sido dada ao impacto negativo dos produtos baratos de origem chinesa sobre as economas africanas. E isto certamente que tem levado declínio da produção industrial e, consequente aumento da taxa de desemprego dos trabalhadores africanos.

No entanto, embora se acredite em grosso modo com as críticas que são feitas da forma como os financiamentos da China estão a ser feitos, também existem benefícios do envolvimento chinês com os países da África Sub-Sariana. Por exemplo, i) a falta condicionalidades sobre a ajuda prestada pela China tem aumentado o espaço e impacto das políticas públicas de muitos países africanos (traduzido em mais serviços sociais como escolas, estradas, postos de saúde e pontes, etc); ii) a China como uma alternativa de créditos está a aumentar o poder de influência de certos países africanos quando lidam com os seus credores tradicionais (Banco Mundial e o FMI); a China estabelece períodos mais longos de pagamento dos seus empréstimos pelos países credores e, geralmente estes períodos estão acima dos períodos normalmente concedidos pelos credores tradicionais. De certo modo, isso tem aleviado na pressão que os países credores têm feito sobre os países devedores no pagamento das suas dívidas externas em períodos muito curtos.

Todavia, a China como principal actor de ajuda aos países da África Sub-Sariana, leva-me a levantar alguns aspectos que podem suscitar futuras discussões e/ou que deviam ser tidos em consideração tais como:

1.      Necessidade dos governos africanos permitirem o escrutínio público nos processos de contracção de empréstimos e participação dos cidadãos na alocação daqueles fundos internamente. Este aspecto pode constituir um valor adicional para a legitimidade dos empréstimos contraídos e, consequentemente, estabilizar o nível das dívidas contraídas;

2.      As nações africanas deviam ter uma actuação que assegurasse que os empréstimos feitos tenham aderência através do estabelecimento de regras de jogo e padrões internacionalmente reconhecidos. Os padrões reconhecidos internacionaslmente deviam funcionar como instrumentos para garantir que os credores são responsáveis e prestam contas;

3.      Urge a necessidade de se estabelecer mecanismos que obriguem a China a conceder empréstimos com base em padrões reconhecidos internacionalmente para salvaguardar aspectos como o respeito pelos direitos humanos, meio ambiente e governação descentralizada e transparente;

4.      A sociedade civil africana devia exercer mais pressão no sentido de engajar-se mais no diálogo com a China e com outros doadores, para talvez estes doadores possam reagir positivamente.

O publico devia ter o direito de saber mais acerca dos processos de empréstimos antes mesmo dos acordos serem assinados e durante a aplicação daqueles fundos. Devia-se inclusive criarem-se instituições com autoridade mandatada clara para supervisionar o processo de empréstimos para garantir maior legitimidade das dívidas contraídas e sustentabilidade em termos de impacto daqueles fundos.

A transparência é de todo modo necessária para assegurar a prestação de contas e uma boa governação. Mas estará a China preocupada com a boa governação nos países africanos? Talvés seja tentador responder isso, mas a China não é democrática. Se ela estiver menos preocupada com procedimentos democráticos e, nem advogar para a boa governação, como têm advogado os doadores tradicionais, isto poderá ter um impacto negativo nas democracias nascentes e muitas vezes até nas chamadas fracas democracias onde há tendência de restrições da actuação da mídia, sociedade civil e oposição. A China tem sido fortemente criticada pelo seu apoio a regimes repressivos. O envolvimento da China em quase todos os casos, tem sido em apoio às suas necessidades pelos recursos naturais mais estratégicos que têm dominado a política internacional, principalmente pelo petróleo. E talvez é daí onde surge a razão de tanta preocupação pelos doadores tradicionais ocidentais em relação à presença da China em África.

Basicamente, a presença da China e a sua prática em África tem provocado mais questões do que respostas. No entanto, tem sido sugerido por muitos analistas que quer os doadores tradicionais, quer os novos doadores, não deviam entrar no jogo de competição por África, mas pela  complementariedade. E parece que a cooperação chinesa com os doadores tradicionais tem estado a dar sinais de incremento, a título de exemplo, em Dezembro de 2007 foi anunciado que a China trabalharia com o Banco Mundial através do Banco chinês (Exim bank) que trata de empréstimos concessionários chineses. Esta decisão da China e Banco Mundial virem a trabalhar conjuntamente, não pode significar um aumento do poder de influência do Banco Mundial e o impacto negativo da presença de doadores nos processos democráticos através do reforço das condicionalidades dos doadores, ditando regras e modelos de desenvolvimento que os países deviam seguir. Pois, o objectivo da assistência ao desenvolvimento dos países africanos deve reduzir ao máximo as dependências que têm minado o papel do estado nesses países. Para efeito, é importante que os próprios africanos tomem a liderança na condução dos processos de desenvolvimento do seu continente.

Quanto aos doadores tradicionais, é apenas uma questão de tornar a assistência ao desenvolvimento mais atractiva para os países africanos sem baixar de padrões. Por exemplo, os países podiam contrair empréstimos quando achassem utilidade nos mesmos e não sempre sob condição; talvez as políticas de condicionalidades económicas (que sempre pretenderam mudar as políticas económicas dos países devedores) deviam ser abandonadas para que se alcance uma verdadeira parceria entre doadores e países recipientes. Isso aumentaria a atracção aos empréstimos e justiça na promoção do desenvolvimento dos países africanos. Neste caso, a China já tem inclusive demonstrado que é possível conceder empréstimos preferenciais com muito baixos interesses e com períodos de pagamentos maiores do que aqueles que têm sido praticados pelos doadores tradicionais e/ou do ocidente.

Mas também é verdade que os empréstimos irrestritos de condições que a China tem praticado, têm arruinado gradualmente os esforços que têm sido feitos para criarem-se condições de alívio à pobreza. Existe deste modo uma preocupação que os empréstimos favoráveis praticados pela China venham a enfraquecer o poder de influência do império ocidental sobre as economias africanas (Campbell, 2007). E apesar dos doadores tradicionais e suas instituições financeiras internacionais (FMI e BM) continuarem a advogarem pela luta contra a pobreza em África, já lá vão mais de duas décadas que as políticas de ajustamento estrutural sobre as condições dos países africanos tem piorado.

 

O impacto dos biocombustíveis no aumento da instabilidade alimentar

 

A demanda pelos biocombustíveis (alguns académicos como Boaventura Sousa Santos, preferem chamar de  agrocombustíveis, porque de bio quase que esse fenónomeno não tem, por tender mais a destruir a biodiversidade do que conservá-la) está a ter um impacto massivo sobre as populações pobres e a criar um aumento da instabilidade alimentar. À medida que as culturas são produzidas para os biocombustíveis elas tornam-se mais caras em termos de custo-efectivo do que os alimentos básicos, mais terras estão a ser utilizadas para os biocombustíveis que por sua vez estão a forçar a alta dos preços dos alimentos e a libertar mais gases das estufas (greenhouse). Em muitos países desenvolvidos europeus (principalmente no Reino Unido) já se fala em legislação de que todos os combustíveis terão 2,5% de mistura de biocombustíveis. No entanto, os biocombustíveis se forem geridos sustentavelmente, eles podem ter um papel positivo na luta contra as mudanças climáticas, mas me parece que ainda não existem medidas sustentáveis ou directivas principalmente dentro dos próprios países desenvolvidos.

 

A produção massiça de biocombustíveis irá representar no futuro um grave problema para as comunidades rurais pelo impacto que terá sobreos preços dos alimentos ao nível mundial. Especialistas na matéria argumentam que o uso de terras férteis para cultivos que se destinam a fabricar biocombustíveis reduz as superfícies destinadas aos alimentos e contribui para o aumento dos preços dos mantimentos.

 

Seria bom que as instituições financeiras internacionais, principalmente o FMI, mudassem um pouco as suas políticas sobre os subsídios agrícolas, isto é, deixar de apoiar apenas programas que se destinam à redução das dívidas externas da maior parte dos países subdesenvolvidos e, passar a subsidiar também a agricultura em regiões onde se possa garantir da sobrevivência das populações locais. A crise gerada recentemente pelo aumento do preço dos alimentos vai criar instabilidades políticas e violência em muitos países mas também pode por em causa os intereses dos países desenvolvidos sobre os países subdesenvolvidos. A maneira como a União Europeia tem financiado as exportações de inputs agrícolas para a África a quase metade do seu preço de produção, só resta uma alternativa – arruinar complementamente a agricultura africana.

 

Vários dirigentes mundiais têm se preocupado bastante com a utilização da produção agrícola com fins energéticos em detrimento dos alimentos, sobretudo num contexto em que o mundo regista uma alta de preços das matérias-primas e a crise alimentar que isso provoca. Acho que a produção agrícola para fins alimentares de base familiar devia ser uma prioridade e, devia beneficiar de mais apoios sobretudo nos países pobres.

 

Algumas razões da subida do preço dos alimentos: Muito recentemente se tem observado que a China e India têm contribuido para manter os níveis de inflação baixos na maior parte do planeta devido, claro, aos pequenos salários pagos a mão-de-obra nesses dois países. Mas este fenómeno começou a inverter, na medida em que numa série de países asiáticos como a própria China, Taiwan, Vitename, os preços da mão-de-obra, da energia e dos materiais de construção estão a subir, o que certamente leva a um impacto inflacionário global. Os casos mais proeminentes são o aumento do preço dos alimentos que subiram 80% em três anos de acordo com o Banco Mundial e, que já resultaram em protestos de rua na Argentina, Ucránia, Egipto, Indonésia e Tailânida. Ainda segundo o Banco Mundial, pelo menos 33 nações em África e na Ásia podem passar por distúrbios. Muitos dos países afectados já estão a tomar um conunto de medidas para lidar com a inflação através do controle de preços, subsídios e até proibições de importação de alimentos.

 

Basicamente as causas do problema são o crescimento da demanda mundial por alimentos, o encarecimento dos combustíveis e da energia (com  o seu impacto na agricultura) e as condições climáticas adversas aos países produtores de alimentos.

 

Portanto, os biocombustíveis estão neste momento a sofrer ataques críticos de duas correntes: a dos ambientalistas que se têm questionado do seu benefício no combate ao aquecimento global e ainda temem que eles (os biocombustíveis) venham contribuir para a devastação das florestas. A segunda corrente é a social, que está a ser responsabilizada pela alta dos preços das comodidades agrícolas que se vem elevando em quase todo o mundo sob o risco de ameaçar causar fome principalmente nos países mais pobres.

 

Em suma, temos que prevenir que os biocombustíveis não causem desastres ambientais e humanitários. E para o caso angolano, seria bom que fossem promovidas mais reflexões se vale a pena arrancarmos com a produção baseada nos biocombustíveis e, se é mesmo prioridade num país que possui aproximadamente 60% da sua população que pratica uma agricultura familiar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transcrição de dois artigos do Engenheiro Fernando Pacheco

Abril 29, 2008 por edde745

 

 

NOVO JORNAL DE 18 DE ABRIL DE 2008

Crise de alimentos, segurança alimentar e agricultura sustentável

 

Angola tem condições para envitar alguns males que a actual crise alimentar provoca através de uma política agrícola mais autónoma e substentável

 

 Fernando Pacheco

A REFLEXÃO ACADÉMICA e científica sobre de­senvolvimento é muito pobre em Angola, prin­cipalmente quando se trata de desenvolvimen­to rural, o que é explicado pela subalternização da investigação científica e dos problemas rurais no quadro das prioridades do Governo. A forma como se (não) tem abordado a crise do aumento dos preços dos alimentos entre nós é apenas mais uma evidência disso.

 

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o in­teresse na produção camponesa – que errada­mente continua a ser considerada de subsistên­cia, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 – pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Inter­no Bruto. Como durante mais de trinta anos es­ta questão esteve longe do centro do debate na­cional – excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de li­dar com ela.

 

Entendo que o desenvolvimento ou é sustentá­vel, isto é, continuado e com condições para se ampliar e reproduzir, ou não é desenvolvimento. Para isso é fundamental que se tenha em consi­deração, entre outros, o factor humano. Ignorar os sistemas de produção praticados pelos campo­neses, que têm garantido, em situações normais, a sua sobrevivência, é um erro crasso. O aumento da produção em condições como as de Angola pode ser encarado sob duas diferen­tes correntes de pensamento. Uma, a “produtivista“, põe o foco no resultado, isto é, na produ­ção em si, e esteve na base da chamada revolução verde, que permitiu progressos espectaculares na produtividade, mas não acabou com a fome nos países onde ocorreu, excluiu a mulher ou re­duziu o seu papel no processo de tomada de de­cisões relativas à produção agrícola e tem pro­vocado sérios danos ambientais. Outra corrente é a “ecológica” ou “sustentável“, que dá ênfase ao processo de transformação gradual dos siste­mas tradicionais, em que o produtor, o elemento-chave, ganha consciência da necessidade de tal transformação, e tem mais preocupações com a preservação do ambiente. Ela preconiza a evolu­ção para os chamados sistemas agro-silvo-pastoris, baseados na associação de culturas anuais ou fruteiras, com a criação de gado e a exploração florestal, pois, se o agricultor tiver gado e explo­rar a floresta – natural ou plantada – poderá dis­por de matéria orgânica para melhorar a estru­tura dos solos, reduzir a sua acidez e defendê-los contra a erosão, males que afectam a produção em quase todo o território narional e contribuem para a degradação ambiental. Ao contrário do que é hoje o pensamento dominante em Angola, esta linha – e não a produtivista – é considera­da mais “moderna” ou avançada a nível mundial, e não é de estranhar que os chamados produtos orgânicos sejam os mais caros em qualquer su­permercado dos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, ela confere menos dependência em rela­ção aos mercados internacionais, o que se revela particularmente importante nos dias de hoje. Se se tivessem em conta os tais saberes e siste­mas, muitas das catástrofes alimentares pro­vocadas por irregularidades climáticas seriam evitadas. É verdade que os actuais sistemas de produção são menos produtivos que os “moder­nos”, mas são claramente social e ecologica­mente mais sustentáveis. Nestes últimos anos os camponeses que semearam milho, massango e feijão de variedades mais resistentes à seca e às pragas e doenças, ou plantaram mandioca ou batata doce, estiveram mais protegidos contra a seca. Não foi por acaso que este ano, nas provin­cias de tradição de mandioca – cultura que nun­ca mereceu atenção por parte da investigação no tempo colonial – não há tanta fome como nas produtoras de cereais com variedades conside­radas mais produtivas. Os preços da fubá não su­biram tanto nos mercados de Malanje como nos dos municípios da Huíla hoje considerados o ce­leiro do País.

 

Uma instituição científica como o Centro Nacio­nal de Recursos Fitogenéticos, que tem recolhido por quase todo o território, preservado e multi­plicado material que reconhecidamente dá mais garantias aos pequenos agricultores, apesar de algumas melhorias recentes é praticamente ig­norado, e só a persistência dos seus membros faz com que não caia no esquecimento total. Infeliz­mente ainda há outras prioridades que se sobre­põem à segurança alimentar de milhões de ango­lanos.

 

Angola tem condições para evitar alguns dos ma­les que a actual crise alimentar provoca, porque ainda está a tempo de definir uma política agrí­cola mais autónoma e sustentável. Para isso tem de reflectir e debater sobre algumas das opções que se desenham e põem em perigo tal opção, como a criação de gado de larga escala e a produ­ção de biocombustíveis sem que condições téc­nicas e científicas estejam reunidas para tal. Vol­tarei ao assunto.

 

 

CONVERSA NA MULEMBA

 

CHEIAS: QUAIS  AS VERDADEIRAS CAUSAS DAS CATÁSTROFES?

 

 

 

Prometi, na última conversa, abordar hoje o tema da segurança alimentar dos camponeses pobres e sua contribuição para o mercado numa perspectiva sustentável, a partir do aproveitamento e melhoria dos seus sistemas de produção tradicionais. Porém, o drama das cheias que tem fustigado as populações pobres da região do Complexo do Leite que, como fiz notar na altura, abrange exactamente as áreas agora afectadas, levou-me a adiar esse propósito e dedicar atenção a este fenómeno pela sua actualidade.

 

Afirmei na conversa de então que não me parecia correcto relacionar a chamada seca com as alterações climáticas ou o aquecimento global de ânimo leve. Na verdade, irregularidades climáticas são frequentes, principalmente quando se está perante ecossistemas equilíbrios frágeis. Algumas pessoas acharam que as minhas afirmações não faziam muito sentido. Na sexta feira, 14, um responsável do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica afirmou o mesmo em entrevista à TPA, e acrescentou que não só esta concentração excessiva das chuvas nos meses de Fevereiro a Abril era previsível, como também que o INAMET havia alertado as autoridades competentes para o facto (lembro-me de ter ouvido tal informação numa estação de rádio num dos últimos meses de 2007). Infelizmente, na nossa governação predomina a improvisação e despreza-se com demasiada frequência o conhecimento técnico-científico, o que faz com que na maioria das vezes se ignorem as causas dos fenómenos e acontecimentos e se atente apenas nas suas consequências. Além disso, gerir situações de emergência, em que a utilização e fiscalização dos fundos públicos  é ainda menos rigorosa, pode ser um bom “negócio”.

 

Lembro-me do fascínio que a paisagem das chanas alagadas do Kunene me causou quando lá estive pela primeira vez no inicio dos anos 70, precisamente no mês de Março, que se foi repetindo ao longo dos anos. Aprendi então que os pastores geriam de modo bem racional a relação entre a água e as pastagens, quer no período seco, quer no  das chuvas. A convivência com cheias é, pois, algo natural para as populações do Kunene e de outras áreas do Complexo do Leite. Quais podem ser, então, as causas da situação actual?  

 

Não direi que a culpa reside por inteiro nas desadequadas políticas e estratégias do pós independência, porque isso não é verdade. Estes problemas começaram quando os portugueses introduziram o sistema de “ranching” no sul de Angola sem terem em linha de conta as especificidades dos ecossistemas, nem os conhecimentos dos povos pastores  na gestão dos recursos naturais. Entenderam que era “lógico” colocar arame à volta das terras ilegitimamente ocupadas e realizar obras de engenharia que destruíram a vegetação natural e as linhas de água e perturbaram as transumâncias e todo o sistema tradicional de criação de gado. Essa política foi mais tarde denunciada por vários técnicos e cientistas, quando começaram a aparecer os primeiros resultados dos investimentos na investigação realizados pelos portugueses a partir do início da década de 60, incluindo o engenheiro Eduardo Cruz de Carvalho, fundador da Missão de Inquéritos Agrícolas de Angola.

 

O grande erro da política actual consiste na recuperação do sistema de “ranching” ignorando as lições do passado, o que é agravado pela elevada concentração humana nas cidades e pelo deficientíssimo  planeamento territorial. Aliás, essa é quase uma constante das políticas e práticas actuais. Perante colapsos ou “desconseguimentos”, as soluções são procuradas no passado colonial, o que poderia não ser um erro se houvesse cuidado em separar as boas das más práticas. Mas, sobretudo, é necessário ter em conta os conhecimentos técnico-científicos e os saberes tradicionais acumulados.

 

O economista José Gonçalves fez e publicou recentemente estudos sobre a água no Kunene abordando a sua dinâmica e influência na vida das populações. Quantas fazedores de políticas e estratégias a nível nacional e regional os leram ou tiveram em conta? O jornalista Paulo Araújo contou num programa da LAC – Luanda Antena Comercial, no passado sábado, 15, que o local onde se encontra a cidade de Onjiva, de acordo com informadores seus, chamar-se-ia antes da ocupação portuguesa “onjeva”, que em língua kuanyama significa “pulseira” ou “anel”, porque era o único pedaço numa enorme extensão de terra, em forma circular, que não era atingido pelas  águas por ocasião das grandes cheias. Os portugueses trocaram “onjeva” por “onjiva”, palavra que não tem qualquer significado, mas o certo é que uma parte da cidade não ficou agora submersa pelas águas. Quantas vidas e recursos não seriam poupados se exemplos deste tipo fossem mais frequentes? A propósito: não será esta uma boa oportunidade para a cidade recuperar o seu provável verdadeiro nome?  

 

                                                                            Fernando Pacheco, 16 de Março de 2008    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Repercussão

Abril 27, 2008 por edde745

O jornal “Cruzeiro do Sul” publicou uma noticia  relativa  as nossas  proximas Jornadas de Estudos.

O  colega Guilherme Santos  da Huila  continua  a fazer contactos  com centros da Huila e Huambo para participação nas mesmas  jornadas e  articulação de trabalhos. Aguardamos textos desses  colegas.

É provavel que J. Gonçalves traga alguns exemplares da Revista da Faculdade de Educação da Universidade do Estado da Bahia (como já ocorreu em ocasiões  anteriores) e que a Editora Nzila coloque à venda varias edições  relacionadas com nosso tema.

CNUCED E AGRO-ALIMENTAR

Abril 21, 2008 por edde745

Decorre em Accra a reunião geral da Conferencia das Nações Unidas sobre Comercio e Desenvolvimento (CNUCED), onde  as  causas  de aumento dos preços agricolas esteve em destaque na cerimonia inaugural. Falaram o Secretario-Geral da ONU e os Presidentes de Ghana e Brasil (ver foto). Vamos tentar obter alguns dos documentos desta reunião para informação dos participantes  das nossas  Jornadas de Julho proximo.

Site da reunião (em inglês, francês  e espanhol): www.unctadxii.org

os três oradores na abertura da CNUCED em Accra

comércio informal agricola na Huíla (foto tirada de site www.cpires na Internet)

 

Qual é o potencial em recursos e talentos humanos que a Huíla possui?

Abril 21, 2008 por edde745

por Guilherme Santos 

 Quando se fala em potencialidades da província da Huíla ou do país, de imediato pensamos nos recursos naturais como os minerais, as águas, as terras, as florestas, os animais, as montanhas, etc. Mas, neste espaço, falaremos sobre outro tipo de potencial, ou seja, os recursos e/ou talentos humanos que esta linda terra possui, quer em termos da sua diversidade e da riqueza em conhecimentos, experiências, saberes, habilidades e competências, quer em termos intuitivos, empíricos, religiosos, teológicos, técnico e tecnológico, filosóficos ou científico. Ora vejamos:

O tecido humano do eixo sócio-cultural e do sistema de produção da região rural dos pastores e agro-pastores, que vai desde o município dos Gambos ao de Quilengues, possui uma riqueza secular e endógena sobre o maneio tradicional do gado e da vida humana. Este sistema é altamente adaptado e de uma vitalidade inestimável num ambiente ecologicamente frágil, que caracteriza a região Sudoeste de Angola. Tal sistema, não se rege somente por critérios físicos – pastos e água, como muitas vezes se faz crer, mas, sobretudo, por critérios de ordem cultural, social, psicológico e ambiental. Até mesmo aqueles que se dizem detentores de sistemas de maneio dito “moderno” recorrem aos sistemas de maneio das populações locais para criarem, cuidarem e manterem o seu gado.

Um outro eixo é o do sistema agrícola da região rural Norte da província, na zona de transição para o Planalto Central, sobretudo, no triângulo geográfico dos municípios de Caconda, Kaluquembe e Chicomba, que tem um valioso capital social e humano sobre agricultura, comércio e formas de organização social.

Se fizermos uma incursão nalguns grupos sociais ou famílias de zonas de agricultura periférica nas localidades de Capunda Cavilongo, no município da Matala, na Palanca, município da Humpata ou na Mapunda, município do Lubango, encontraremos gente com conhecimentos e habilidades acumulados ao longo dos anos sobre horticultura, fruticultura e fabrico artesanal dos deliciosos derivados da carne de porco – o chouriço, o torresmo, o paio, o presunto e outros.

Deste modo, a diversidade etnolinguística e cultural composta por vários segmentos sociais significativamente representados na província, como os Nyaneka Nkumbi, os Tchokwe, os Ovinbundu e os Nganguela, estabeleceram ao longo dos anos, relações, trocas, cruzamentos, partilhas e interacções que é hoje uma síntese, uma mais valia de todos nós que vivemos neste espaço geográfico. O mesmo é válido em relação aos chamados tipo somático ou “raças”.

Para além disso, a diversidade das confissões religiosas, sobretudo as religiões tradicionais Cristãs, é também um potencial e uma riqueza da antropologia e das liberdades. Estas Igrejas, que ao longo de muitos anos de evangelização e de educação de gerações e gerações, são hoje, os principais guardiões da tradição da cultura letrada e da fé Cristã. São elas, que apesar de tudo, ainda sustentam os pilares dos valores humanos mais altos, neste mundo caracterizado por  modelos e tendências cada vez mais perversas e individualistas. São muitos, os consagrados de todas as denominações que estão em lugares mais remotos dando apoio espiritual e social a pessoa humana.

 A presença e a influência da Universidade cuja tradição académica remonta desde o tempo colonial, se afirmou no contexto nacional. É incontornável falar da Universidade em Angola sem fazer referência ao Lubango. Aliás, há muitas evidências no país e no mundo de notáveis personalidades que aqui se formaram. E o sistema universitário vai se reproduzindo, alargando e ampliando noutras áreas do saber.

A presença daqueles que se formaram na Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, em Cuba, na Europa, em Luanda e noutras paragens do mundo, sejam ele(a)s nacionais ou estrangeiros.

O ensino médio das diferentes áreas de conhecimentos “produziu” muita e boa gente. As artes e ofícios como os mecânicos, os pintores, os bons cozinheiros, os músicos, os homens da arte e da cultura são uma parte daquilo que é mais importante que a Huíla possui. Os grandes, os médios e os pequenos aglomerados urbanos da província e as suas dinâmicas e vitalidade do mercado informal – serviços, produção e comércio, é um potencial de conhecimentos e habilidades e experiência sem autor, para conseguir se manter e desenvolver.

Em suma, este é outro tipo de potencial que às vezes é pouco referenciado, sobretudo numa era em que Angola está a revitalizar-se em quase todos os aspectos.

prosseguindo

Abril 16, 2008 por edde745

As tomadas de posição de altos  dirigentes de instituições financeiras,  como o FMI e o Banco Mundial, sobre a espiral de preços dos cereais e artigos na midia internacional sobre o mesmo tema, são motivo suplementar de interesse para as nossas Jornadas de estudo deste  ano.

Estamos a trabalhar na  seguinte formula:

datas: 10 a 15 de Julho

primeiro dia: água e desenvolvimento – J.Gonçalves

segundo dia: projectos agricolas e economia – J. Cerqueira

terceiro dia : pecuaria e ruralidades – G. Santos e  grupo do Lubango

quarto dia: avaliação dos numeros produzidos e discussão geral sobre as proximas edições dos “Cadernos de Pesquisa”

quinto dia: reunião geral sobre colaboração inter-centros.

Esta formula deverá ser confirmada até final deste mês. Na ausência do Padre Dionisio, que se encontra na CEAST em Luanda, assume a coordenadação o Padre Leopoldo.

PREÇOS DE PRODUTOS ALIMENTARES EM ALTA NO MUNDO

Abril 10, 2008 por edde745

Este é um assunto que pode ser abordado nas nossas proximas Jornadas de estudo. Com efeito, o mercado mundial regista uma acentuada  subida de preços de bens alimentares, causa de inflação inclusive em países desenvolvidos, como a França. O DG da FAO avisou que esta situação pode provocar mais fome e o PAM  já pediu aumento de verbas para manter seus programas.

Uma das razões para a subida é o aumento do consumo alimentar em  grandes países emergentes como China, India e Brasil, mas há tambem  referencias ao aumento de produtos agricolas na produção de biocombustiuveis. Qual dos dois tem mais peso, é motivo para fortes debates em várias partes do mundo.

O que é certo é que esta situação é, ao mesmo tempo, umgrande desafio e uam boa perespectiva para a agricultura.

Huambo: PCA do BIC apela empresários a investirem no ressurgimento de indústrias agro-pecuárias

Abril 10, 2008 por edde745

 

 Da Angop

Huambo, 09/04 – O Presidente do Conselho de Administração (PCA) do Banco Internacional de Crédito (BIC), Fernando Telles, apelou recentemente, na cidade do Huambo, os empresários nacionais e estrangeiros a investirem no ressurgimento de indústrias agro-pecuárias com finalidade de se tirar maior proveito das potencialidades que esta região dispõe, bem como acelerar o seu desenvolvimento socioeconómico.Para ele, independentemente dos investimentos que estão a ser feitos no sector hoteleiro, mobiliário e outros, é importante começar-se a pensar no fomento da produção industrial agro-pecuária para que num curto espaço de tempo a província recupere o estatuto de celeiro de Angola, ostentado nas décadas anteriores.

O que se espera, realçou Fernando Telles, é que haja mais empresários a investirem neste sector e que seja dada maior atenção na produção de cereais diversos, dada a sua cotação no mercado internacional.

“Deve-se incentivar os empresários que tenham ambições de explorar as grandes fazendas que o Huambo tem ou então sejam encetadas parcerias de angolanos para o exterior, afim de elevar a produção de subsistência”, disse.

Fernando Telles reconheceu ainda que os actuais níveis de produção agro-pecuária, caracterizados em exploração de pequenos hectares de terra, não tornam viáveis os grandes projectos de investimentos tendentes a dotar a actividade de meios modernos que garantem uma maior produção.

O PCA do BIC anunciou também que a sua instituição financeira dispõe de crédito utilizável estimado em um bilião e 500 milhões de dólares para apoiar diversas iniciativas empresariais ou de cidadãos singulares em todo o país.

Para tal, alertou, tais montantes serão apenas adjudicados para o apoio de projectos com carácter empreendedor que apresentam viabilidade e rentabilidade.

Instalado na província do Huambo em 2006 o Banco Internacional de Crédito já conta com três balcões, dos quais dois estão na cidade do Huambo e um na cidade da Caála, a 23 quilómetros da capital da província.

 

 

Abril 9, 2008 por edde745

O nosso colega Guilherme Santos  confirmou sua presença nas Jornadas e com ele virão outros participantes do Lubango que, em conjunto, conduzirão  uma das sessões de trabalho. Cada sessão ocupará um dia com comunicações  e  debate dedicadoa um sub-tema.

Datas

Abril 9, 2008 por edde745

A título indicativo informamos que as jornadas de estudo deste ano terão lugar entre 10 e 16 de Julho. Confirmaremos e daremos os primeiros elementos do programa  após o regresso a  Ondjiva do Padre Dionisio, Director Executivo do CEED, que se deslocou a Luanda.